A música termina menor,
Não aos poucos, nem depressa,
Mas tem que parar.

Fotografias

No fundo, ainda guardo alguma esperança,
Pois me alimento dela,
Me agarro às lembranças mais belas,
Não posso suportar perdê-las,
Já que elas são tudo que me resta d'Ela.

Lembro do sol de fim de tarde -
Brilhando na lagoa calma,
Brigando por um lugar em meus olhos,
Que só eram olhos pra Ela.

Lembro que ele nos abraçava
Que nos beijava,
Que ele gravou tão fundo em mim,
Aquelas tardes,
Aquela beira d'água,
Aquele trapiche,
Aquelas conversas,
E, acima de tudo Seu rosto.

Lembro que sua boca era fresca,
Seu rosto era macio,
Seus lábios eram doces,
E Seus beijos cheios de amargos receios.

Lembro de, um dia, ver Seus cabelos pela manhã,
Despertar ao Seu lado,
Sem acreditar ter despertado
E, atento ao seu rosto,
Dizer-lhe uma palavra amável.

Lembro das promessas que fiz,
Dos versos, de cantar baixinho,
Querendo gritar de alegria.

Lembro de ler Vinícius,
Drummond, Camões, Florbella.

Lembro que tudo eram flores,
Que murcharam num dia,
Que secaram noutro,
Que viraram cinzas,
Que Ela soprou pra longe,
Sem saber das que me trazia.

...

Por fim, depois da noite de chuva
E da escura madrugada,
Nasce, como se não fosse nada,
O sol na mulher amada.
Mas, antes que ele se ponha,
Que seja belo o dia,
Que seja só alegria,
Que nenhuma nuvem seja melancolia,
Que nosso amor seja só poesia.

Este Momento

O tempo inexiste,
O mundo inexiste,
A própria realidade
Parece ter sido banida deste momento.

E, por instante,
Todos os olhos,
Todos os ouvidos,
Tudo parece estar atento a este momento.

Sinto-me leve, imaterial.
Sinto que somos só energia,
A única energia,
A origem de tudo:
Somos amor!
Nada mais importa.
A imagem se perde,
Meu sangue ferve,
O sol arde no fim tarde,
Tudo atinge seu ápice
Neste momento.

E, neste momento,
Seus olhos nos meus.
E, neste momento,
Seus lábios nos meus.
E, neste momento,
Toda a beleza em volta é só um detalhe.
E, neste momento,
Lhe sopro ao ouvido,
Um som baixinho, mas exibido,
De quem tem a felicidade nos braços:
Eu te amo
Neste momento,
E és tudo que quero
A partir deste momento.

...

O meu amor
É uma coroa de espinhos no meu coração.
E de suspiros, lágrimas e dor,
Nasceu outra vez uma canção,
Pois sou um poeta medíocre,
Que não sabe viver,
E que não sabe amar,
E que escreve seus cantos tristes,
E que ama uma mulher que não o ama
(E que a outro ama)
E que conscientemente mente e se engana,
Sonhando, de pé ou na cama,
Fingindo que um dia, nessa curta vida humana,
Há de tê-La só pra si.

Como é bom tê-la comigo

Como é bom tê-la comigo.
Nos seus abraços, meus braços são felizes,
E os seus olhos, profundos e corajosos,
Quebram a resistência dos meus.
Pois estes, mais do que nunca,
Inutilmente relutam em amar.

Mas não podem resistir.
O mel dos seus lábios corre pela minha boca,
Pela minha garganta, pelas minhas veias
E atinge meu coração, despedaçando-o,
E, em seguida, outra dose vem pra torná-lo uno outra vez,
Restaurar os pedaços perdidos,
Construir do zero o que não pode ser recuperado.

Tento retribuir,
E, Embora meus beijos não possam ser tão doces,
E meus abraços não possam ser tão quentes,
Meu coração explode em cores
Quando está junto ao seu.

Adeus...

I
Não é só a Ela que digo adeus,
Sinto que estou beijando cada coisa
Como um condenado frente à forca.
Por onde passo, restam minhas cinzas,
Deixo meu coração em pedaços,
Deixo um pouquinho de vida,
Em cada lugar.

E em cada lugar
Sinto Seu perfume,
Sinto Seu gosto fresco,
Na chuva, no mate,
No vinho e em todos os meus prazeres.
Me persegue a tristeza que a falta d’Ela me causou.
Mais que o amor, resta ela,
Minha inseparável companheira.
Resta a cinza do dia em que Ela me fez em cores
No chão santo daquele beijo,
No caminho que passamos juntos.
Resta cinza em tudo que toco e em tudo que amo.
Resta cinza sobre as flores,
Que viveram pouco nessa primavera.

II
Amantes que são felizes,
Ensinem-me como amar e ser amado,
Pois já perdi toda a esperança.

Poetas do meu coração,
Ensinem-me como cantar alegria,
Pois meus cantos só conhecem dor.

Amigos que me viram cair,
Ajudem-me a levantar,
Pois já não tenho forças.

Garota dos olhos de mel,
Faz meu coração bater por ti
Antes que ele pare.

Ajudem-me, todos!
Porque sozinho sou fraco,
E vocês são os meus braços.

III


Ai! Eu vi minha poesia fraca correr tão livre, tão feliz, tão bela, tão colorida,
E tive que vê-la cair nessa profunda dor...
Mas não posso suportá-la em silêncio.
Tenho que continuar a cantá-la, mesmo triste, mesmo cinza,
Pois o fim é sempre a cinza...
Resta a cinza sempre, resta a cinza de tudo....
O esplendor da floresta queimada resta nas suas cinzas,
A beleza das flores resta nas suas cinza,
A aquarela se desmancha, descolore, em cinza...
A vida termina numa sepultura cinza...
O verão termina no inverno cinza...
Tudo que é belo, tudo que morre, tudo que arde, tudo que brilha,
Tudo finda na cinza!

Elegia à Tristeza

Tragam-me uísque,
Com gelo, por favor,
Um papel e uma caneta.
Tragam-me companhia,
Em especial a d’Ela.
Tragam- me, enfim, uma corda
E me levem até uma bela árvore.
Coloquem uma mesinha, cubram-na com uma toalha xadrez
E uma garrafa de vinho tinto.
Construam uma casinha e, por favor,
Não esqueçam de plantar narcisos no jardim de frente
E cravos no jardim de traz.
Deixem tocar schumann no fundo
E façam absoluto silêncio,
Pois hei de escrever um último poema.

Esperem o sol começar se por,
Então me deixem sozinho.
Voltem em alguns minutos,
Quando ele estiver nos seus últimos raios.
Desliguem a música,
Deixem que o silêncio seja a mais bela elegia.
Deixem que o último raio de sol toque seu rosto,
Antes de velar sua lembrança.
Deixem-me beijar sua pele,
Deixem-me me despedir dessa companheira que me persegue,
Só então acendam uma vela
E respeitosamente digam uma ou duas palavras,
Pois ali jaz a minha tristeza.